sábado, 29 de janeiro de 2011

festim diabólico


o dia amanheceu nublado

nevoas densas de cigarros ainda pairam pela casa

joão gilberto desafina no repeat

doses não bebidas dão cheiro e cor ao ar

pessoas desinteressantes se interessam por mim

eu passo

pássaros também não muito lá interessantes

ocupam toda sua atenção

eu passo

a mão pela cabeça

com a estranha sensação

que tomei no cú

e três vezes

domingo, 23 de janeiro de 2011

de bye em bye


índices de produção em queda

catanças a esmo dos sentidos & dos significados

calopsitas cagando pelo quarto

décima despedida

um estranho sorri fechando os olhos

a feira estava feia & cheia de orientais

descomi um sukiyaki na banca de pastel

& comi três

dei cuenta

do alto de minha macheza contemplada em quase meio século


vc deixa pistas por onde passa

& planos também




sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

aventura rural




pela estrada afora de terra vermelha batida e rasgada

medinhos infantis sobre duas rodas

desejos de adulto com pernas bem apertadas

cheiro seu gostoso esfregado na cara pelo vento

um salto

dois sobressaltos

& o coração já aos pulos & entregue na milúltima curva
enquanto a cachoeira se taca rochas abaixo

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

desbodas


dez anos
não são dez dias
nem se contam em dez dedos
mas contam nossa história.
por aí
nos bares os bêbados choram
ali e aqui fogos estouram
uns poucos lamentam.
fomos felizes
tivemos muitos filhos
faríamos mais se mais tempo tivessemos
não tivemos.
por isso os vasos
as louças
os talheres
os lençois
travesseiros
perfumes
copos
gravatas
chinelos
viagens
o quarto na rua plenska
& as correrias pela radlicka

jaloezie, jealousy, Eifersucht


estômago e fígado espremidos
impressão de passar por tonto o tempo todo
terra nas unhas
alguns sorrisos que pouco significam
& muita chuva
são pedro manda água
torro a ponta mordendo os dedos
como um quibe & desisto de tomar café
(gosto quando flexiona os verbos na terceira pessoa do plural
odeio quando tem curtas falas ao telefone)
volto para casa
pisando duro & cara fechada
regurgitando a bile amarga do ciúme
fazendo força para ficar quieto
& aquietado no canto bonito
da menina
que parece que nem peida.

sábado, 15 de janeiro de 2011

carpe diem


já estava desarmando os amanhãs
quando você novamente voltou
só por hoje.
então só por hoje
nenhum plano
nenhum bimotor
nenhuma exclusividade tua ou minha
só o aqui e agora
presente tenso.
novo dia
quem sabe
depende da disposição poética
das afinidades eletivas
ou
dos astros
dos arcanos
do i-ching
dos búzios
das cartas
das runas

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

torquatada bipolar


acho que estou triste
acho que estou muito triste
acho que estou completamente triste
(outra forma de dar dito
ao dito de torquato
que quis ser contente)
acho que estou contente
acho que estou muito contente
acho que estou completamente contente

completamente completamente
pode ser que eu já seja
que já tenha sido
completamente completamente